O assassinato brutal do cão Orelha, em Florianópolis, deixou um rastro de sangue que vai muito além das calçadas da capital catarinense. Quando um animal querido por toda uma comunidade é submetido a sessões de tortura por adolescentes que desfrutam do topo da pirâmide socioeconômica, o crime deixa de ser um caso isolado de maus-tratos para se tornar um diagnóstico sombrio e um sintoma alarmante de uma falha educacional e moral profunda. O que assistimos não foi um erro de percurso ou uma “rebeldia juvenil”, mas a manifestação de um vazio moral preenchido pelo sadismo e pela certeza da impunidade.
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A psicologia forense é clara ao apontar que a crueldade deliberada contra seres indefesos na juventude é um dos preditores mais consistentes de transtornos graves de personalidade, como a psicopatia. Ao contrário do que o senso comum sugere, esses atos não nascem da falta de acesso à educação formal, mas da ausência completa de empatia afetiva — a incapacidade patológica de reconhecer a dor do outro como algo real. Para esses jovens, o sofrimento do Orelha foi meramente um espetáculo de poder. Eles não viram um ser que sentia medo e dor; viram um objeto descartável sobre o qual podiam exercer uma dominância absoluta, característica clássica daqueles que crescem sob a égide do “tudo posso”.
Essa deformação de caráter encontra solo fértil em famílias onde o privilégio financeiro é usado como escudo. Quando a educação é focada apenas no sucesso material e na manutenção do status, negligenciando a formação ética, criamos indivíduos que enxergam as leis e a moral como obstáculos contornáveis por um bom advogado. A proteção excessiva e o abafamento de erros anteriores funcionam como uma pedagogia da monstruosidade: o jovem aprende que é intocável. O perigo é imediato e futuro. Se hoje o alvo é um animal comunitário, amanhã esses mesmos indivíduos — imersos em um narcisismo maligno e na dessensibilização da violência — ocuparão cargos de liderança, gerindo vidas humanas com a mesma frieza com que orquestraram o fim de um cão indefeso.
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A morte do Orelha não pode ser em vão, nem pode ser silenciada pelo peso de sobrenomes influentes. A sociedade precisa encarar que a tortura animal é a ante-sala de crimes ainda maiores e que a “boa educação” das escolas caras não substitui a responsabilidade moral que nasce no berço. O tipo de adulto que esses adolescentes se tornarão já está desenhado em cada ato de crueldade que praticaram. Resta saber se o sistema de justiça e a própria sociedade permitirão que essa patologia social continue sendo tratada como uma mera “fase”, ou se finalmente entenderemos que a vida — seja ela humana ou animal — não tem preço, e a barbárie não pode ter esconderijo no luxo.
“A compaixão pelos animais está intimamente ligada à bondade de caráter.” — Arthur Schopenhauer.
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