Quando Brasil e Haiti entrarem em campo nesta noite, alguns olharão para o placar antes mesmo de a bola rolar.
O Brasil é favorito. Deve vencer. Talvez goleie.
Mas há partidas que carregam histórias grandes demais para caber em noventa minutos.
O Haiti não é apenas um adversário de Copa do Mundo. É um país cuja trajetória desafia a própria ideia de sobrevivência. Primeiro vieram os colonizadores. Depois, a escravidão. Em seguida, a revolução que fez nascer, em 1804, a primeira república negra independente da história moderna. O Haiti venceu a guerra pela liberdade, mas nunca teve a oportunidade de desfrutar plenamente da vitória.
Vieram o isolamento internacional, as intervenções estrangeiras, a instabilidade política, a pobreza e os desastres naturais. Poucos países sofreram tanto. Poucos resistiram tanto.
Talvez por isso exista algo de especial quando brasileiros e haitianos se encontram.
Em 2004, o Brasil assumiu o comando da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti. Ao longo dos anos, milhares de militares da Marinha, do Exército e da Força Aérea Brasileira passaram pelo país. Em meio à instabilidade e ao sofrimento, ajudaram a levar segurança, assistência humanitária e esperança.
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Muitos voltaram com histórias que jamais entraram nos relatórios oficiais: casas no chão, famílias dilaceradas, mães tentando recomeçar a vida e crianças que, nos raros minutos sem tensão, voltavam a ser apenas crianças ao chutar uma bola com militares brasileiros.
Voltaram também com a imagem de Pétion-Ville, o bairro rico de Porto Príncipe, contraste duro de um país em que a desigualdade, mesmo cercada por escombros, insistia em permanecer de pé.
Os militares brasileiros não resolveram todos os problemas do Haiti. Nenhum país conseguiria. Mas deixaram uma marca de humanidade que ainda hoje ajuda a explicar a força simbólica desse encontro.
Foi nesse contexto que aconteceu um dos episódios mais marcantes da história recente da Seleção Brasileira.
Em agosto de 2004, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Kaká e outros campeões do mundo desembarcaram em Porto Príncipe para disputar o chamado Jogo da Paz. A população tomou as ruas. Homens, mulheres e crianças subiram em muros, árvores e telhados apenas para enxergar de perto aqueles jogadores.
O Brasil venceu por 6 a 0. Mas ninguém se lembra do resultado.
O que ficou foi a imagem de um povo que, por algumas horas, conseguiu trocar o medo pela alegria. O que ficou foi a sensação de que, naquele dia, ninguém explica o futebol. É muito mais que onze contra jogadores.
Hoje, mais de vinte anos depois, muita coisa mudou. Outras feridas permanecem abertas.
O Haiti continua enfrentando desafios. Muitos haitianos reconstruíram suas vidas no Brasil depois do terremoto de 2010. Estão nas universidades, nos hospitais, nas obras, nas igrejas, nas pequenas empresas e nas grandes cidades brasileiras. Tornaram-se parte da nossa própria história miscigenada.
Quantos brasileiros já dividiram o ônibus, o trabalho ou a sala de aula com um haitiano sem conhecer a jornada que ele percorreu?
Quantos sabem que aquele pequeno país do Caribe ousou desafiar um sistema colonial e escravista e pagou um preço altíssimo por isso?
E quantos lembrarão, nesta noite, que o técnico brasileiro daquele Jogo da Paz era Carlos Alberto Parreira, campeão do mundo em 1994, hoje internado aos 83 anos e travando mais uma batalha da vida?
Quando a bola rolar, haverá disputa. Haverá gols. Haverá uma seleção favorita e outra tentando desafiar mais uma vez as probabilidades.
Mas existe uma pergunta maior do que qualquer resultado.
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O que significa vencer Somar três pontos? Marcar mais gols? Ou deixar marcas positivas na vida de outros povos?
O futebol não responde tudo. Mas, de vez em quando, nos obriga a fazer as perguntas certas.
E quando Brasil e Haiti se encontram, a história ensina que existe algo mais importante do que o placar.
Porque, se dentro de campo o Brasil ainda busca reencontrar o futebol que encantou o mundo, fora dele houve momentos em que brasileiros e haitianos jogaram juntos o mais bonito dos jogos.
O da solidariedade.
Por Edwaldo Costa, pós-doutor ECA/USP e pesquisador da UnB/CEAM/NECLA
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