O Brasil venceu. Vinicius Júnior já marcou quatro gols. A Seleção avançou na Copa. Por alguns minutos, o País voltou a se reunir diante da televisão com algo que parecia adormecido: a esperança de que o futebol ainda é capaz de nos devolver uma alegria.
Mas o brasileiro é um torcedor de sentimentos complexos. Celebrou o gol, vibrou com a classificação, discutiu o VAR no lance anulado e, antes mesmo de o apito final esfriar, já lançou a pergunta que acompanha a Seleção há décadas: será que esse time aguenta a próxima fase? Alguns acham que não.
Em Bangladesh, a reação foi outra. Mais intensa, mais espontânea e, talvez, mais bonita.
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Enquanto parte do Brasil ainda discutia se o gol foi mérito de Vinicius Júnior, falha da defesa ou consequência de uma convocação malfeita, torcedores bengalis saíram às ruas vestidos de amarelo, agitando bandeiras brasileiras e celebrando como se a vitória tivesse garantido feriado nacional em Daca. Teve um garotinho que morreu eletrocutado com uma bandeira do Brasil nas mãos.
É aí que surge uma constatação incômoda: talvez Bangladesh esteja torcendo pelo Brasil com mais amor e fé do que parte dos brasileiros que se apresentam como especialistas em futebol.
No Brasil, o cidadão ama a Seleção, desde que ela jogue bonito, vença sempre, não escale jogador do rival, não desperdice chance clara, não erre um passe decisivo e não invente um novo corte de cabelo. Em Bangladesh, a relação parece mais simples. O Brasil entra em campo, e ruas, universidades, praças e telões viram arquibancadas.
O fenômeno não é pequeno. O embaixador do Brasil em Bangladesh, Paulo Dias Feres, calcula que o país possa ter até 100 milhões de simpatizantes da Seleção Brasileira. É uma torcida maior do que a população de muitos países que já levantaram a Copa do Mundo e, certamente, mais vibrante do que muita gente que acompanha o time daqui apenas para encontrar um novo motivo de reclamação.
A Seleção Brasileira nunca jogou em Bangladesh. Ainda assim, o Brasil mora no coração de milhões de pessoas por lá. Não por obra de campanha publicitária, contrato milionário ou influenciador de camisa amarela. Está presente porque Pelé, Ronaldo, Romário, Ronaldinho, Neymar e agora Vinicius Júnior ajudaram a construir uma espécie de cidadania afetiva brasileira do outro lado do mundo.
É o brasileiro honorário. Sem CPF, sem título de eleitor, sem obrigação de discutir escalação no grupo da família e sem precisar fingir que entende mais de futebol do que o técnico.
Bangladesh é um país de enorme população, marcado por desafios sociais e por uma história nacional relativamente recente. O críquete (semelhante ao beisebol) tem presença no cotidiano esportivo local, mas, quando chega a Copa do Mundo, o futebol toma conta das ruas e o Brasil se transforma em uma seleção adotiva.
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Não se trata apenas de simpatia por uma camisa. É uma identificação construída por gerações. Talvez esteja aí uma lição incômoda para nós. O Brasil costuma tratar a própria Seleção com uma mistura de amor e hostilidade. Em vez de se limitar ao futebol, parte da torcida gosta de transformar cada jogo em disputa política e vigiar a vida privada dos jogadores, que pouco têm a ver com o que acontece em campo.
Em Bangladesh, aparentemente, ainda existe espaço para o futebol como festa. Quando o Brasil marca, milhares de pessoas se reúnem diante de telões, gritam, se abraçam e usam a primeira pessoa do plural: “Nós ganhamos”.
É curioso. O brasileiro, em alguns momentos, olha para a Seleção e pergunta: “Quem são esses?”. O bengali, a milhares de quilômetros de distância, responde sem hesitar: “Nós”.
Talvez seja por isso que Bangladesh seja tão Brasil nesta Copa. Não porque reproduza o País real, com suas contradições, suas crises e seus intermináveis debates. Mas porque preserva uma versão afetiva do Brasil que nós mesmos, tantas vezes, esquecemos de enxergar.
Em Daca, a Seleção ainda representa alegria, imaginação e possibilidade. Aqui, frequentemente, representa escalação, cobrança e irritação.
E, convenhamos, se a Seleção chegar longe nesta Copa, talvez seja prudente reservar uma vaga na comemoração para Daca. Afinal, há brasileiros de nascimento, brasileiros por documento e brasileiros por convicção.
Os últimos talvez sejam os mais apaixonados.
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