O futebol sempre teve prazo de validade. Uma geração chega, domina, encanta. Depois, aos poucos, vai saindo de campo. E quem está na arquibancada aprende, cedo ou tarde, que ídolo também tem apito final.
A turma do rádio de pilha viveu isso com Pelé, tricampeão mundial em 1958, 1962 e 1970, que encantou o futebol mundial. Ao redor dele, um time de lendas: Garrincha, Coutinho e Vavá. Do outro lado do campo, rivais do mesmo tamanho: Eusébio, Bobby Charlton, Franz Beckenbauer e o talentoso goleiro Lev Yashin. Era um tempo em que o jogo era narrado, mas nem por isso menos grandioso.
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Depois veio a geração da TV ao vivo. O futebol ganhou imagem, ganhou replay, ganhou cor. E foi da sala de casa, diante da tela, que milhões de torcedores viram seus ídolos se despedirem. Nomes que também fizeram história e deixaram saudade: Paolo Rossi, Diego Maradona, Romário, Zico, Michel Platini, Lothar Matthäus, Roger Milla, Zinédine Zidane, Oliver Kahn, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e David Beckham. Craques que saíram dos gramados deixando o jogo um pouco mais vazio e a memória do torcedor ainda mais cheia.
Ronaldo Fenômeno pertence a essa transição. Ganhou as Copas de 1994 e 2002. É fruto da televisão, com os primeiros passos da internet ao redor. Não nasceu na cultura digital, mas ajudou a atravessá-la.
Quem, praticamente, inaugura na era do jogador conectado, midiático e global são os nomes que vieram depois, com perfis em redes sociais. E é exatamente essa geração que pode viver seu último grande ato na Copa do Mundo FIFA 2026.
Lionel Messi, que completará 39 anos em junho, e Cristiano Ronaldo, aos 41, chegam como símbolos de longevidade e reinvenção. Um pensa o jogo como poucos na história. O outro finaliza como ninguém. Ainda podem resolver, ainda podem decidir, ainda podem mudar partidas. E fazem isso também fora de campo, como protagonistas da era digital: Cristiano Ronaldo soma cerca de 673 milhões de seguidores no Instagram, Messi ultrapassa 512 milhões.
E há o capítulo brasileiro. Neymar, aos 34 anos, tornou-se o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira em jogos oficiais, superando Pelé em 2023. Também é um dos maiores nomes da geração do selfie, com cerca de 235 milhões de seguidores no Instagram. Mas o momento exige cautela. Lesões recentes e falta de sequência levantam uma dúvida: será convocado? Chegará em condições de disputar e decidir uma Copa?
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A geração do rádio imaginou seus ídolos. A da TV os viu. A do selfie conviveu com eles todos os dias, entre gols, bastidores e telas de celulares que nunca se apagam.
E talvez por isso essa despedida pode ser mais dura.
Porque, pela primeira vez, o torcedor não está apenas assistindo ao fim de uma era. Ele está perdendo personagens que fizeram parte da sua rotina de entretenimento no celular.
A verdade é simples, direta, quase cruel: todo craque tem seu último jogo. Sem prorrogação, sem VAR, sem replay.
Escrito por
Edwaldo Costa, jornalista e pós-doutor pela USP e pela UnB, cobre Copas do Mundo desde 2014. Joga com visão ampla. Analisa o futebol além das quatro linhas, interpreta o que está por trás das jogadas e compreende o peso das narrativas que cercam o jogo.
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