O amor que o Brasil não dá à Argentina agora veste a camisa do Paraguai

O amor que o Brasil não dá à Argentina agora veste a camisa do Paraguai

Postado em 02/07/2026

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Há derrotas que se explicam pela tática. Outras revelam algo mais incômodo: o que acontece quando não se faz a lição de casa.

A Alemanha entrou em campo como Golias. Tinha a camisa, a tradição, os títulos, os nomes conhecidos, a posse de bola e a segurança de quem se acostumou a acreditar que o tamanho basta. O Paraguai chegou como Davi, sem armadura reluzente, sem a obrigação de vencer e sem o peso de corresponder às expectativas alheias. Levava apenas algumas pedras e a convicção de que o impossível costuma ser uma palavra usada por quem não olhou direito para o adversário.

O Brasil, que raramente reserva carinho à seleção argentina, encontrou no Paraguai uma espécie de afeto continental. Não era apenas torcida contra a Alemanha. Era torcida pelo menor que se recusa a se comportar como menor. Pela seleção que não pediu licença para sentar-se à mesa dos grandes. Pela camisa vermelha e branca que, de repente, passou a carregar a esperança de todos os que ainda acreditam que o futebol pode corrigir, em noventa minutos, as hierarquias que o mundo tenta tornar definitivas.

E havia, naturalmente, o humor brasileiro. Nas redes, o Paraguai deixou de ser apenas o país das compras de fronteira e do meme do Mounjaro barato. Depois de derrubar a Alemanha, ganhou outra identidade no imaginário nacional: a de uma seleção capaz de vender caro uma zebra histórica.

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A pergunta que a Alemanha deveria ter feito antes da partida era simples: quem são esses paraguaios?

Quem é Orlando Gill, que não se intimidou diante de uma camisa que carrega quatro estrelas? Quem são Gustavo Gómez, José Canale, Junior Alonso, Andrés Cubas, Damián Bobadilla, Matías Galarza, Miguel Almirón e Julio Enciso? Não bastava conhecer os nomes, as posições ou os clubes em que atuam. Era preciso compreender o que carregavam. Do outro lado havia homens acostumados a disputar cada bola como se ela fosse um território.

Não se sabe até que ponto a Alemanha negligenciou o estudo do adversário. Mas parecia não ter entendido a natureza daquela equipe. Talvez tenha olhado demais para os números e pouco para a disposição. O Paraguai não entrou em campo para participar do espetáculo alemão. Entrou para interrompê-lo.

Há uma fábula popular sobre um sapo que vence uma corrida contra a lebre porque era surdo. Enquanto os outros ouviam que não conseguiriam, que o caminho era longo demais e que a vitória pertencia a alguém maior, ele seguia. Não porque fosse necessariamente mais forte, mas porque não se deixou governar pelo barulho da desistência.

Há também a imagem dos peixes que sobem a piracema sem escutar que a correnteza é forte demais. Não é uma lição de biologia, mas uma metáfora sobre sobrevivência. Quem escuta todas as vozes que anunciam sua derrota dificilmente encontra força para nadar contra a corrente.

O Paraguai fez isso. Nadou contra a tradição alemã, contra os prognósticos, contra a posse de bola, contra o peso das camisas e contra a velha ideia de que a Copa do Mundo pertence, por direito natural, aos mesmos de sempre.

A vida muda. O futebol também.

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A Grécia, em seu tempo, imaginou-se a medida do mundo. Roma acreditou que sua ordem seria permanente. Mais tarde, a Europa chamou de universal aquilo que, muitas vezes, era apenas europeu. No século XX, os Estados Unidos deslocaram o eixo do poder global e reorganizaram rotas, mercados, imaginários e influências. Mas nenhum centro é eterno. Toda supremacia, cedo ou tarde, descobre que o mundo continua girando sem pedir autorização.

No futebol, acontece o mesmo.

Não existe receita. Não existe camisa invencível. Não existe tradição que dispense vigilância. A história pesa, mas não entra em campo sozinha. O currículo intimida, mas não disputa dividida. A reputação ajuda, mas não marca gol.

A Alemanha tinha onze jogadores. O Paraguai também. Mas futebol nunca foi apenas onze contra onze. Futebol é memória contra memória, medo contra coragem, estratégia contra improviso, soberba contra fome. É a ciência dos detalhes e a arte do imprevisto.

No fim, o Paraguai não derrotou apenas a Alemanha. Derrotou a ideia de que o futebol deve obedecer à lógica dos currículos. Lembrou que Davi ainda encontra pedras, que o sapo surdo ainda corre e que há peixes dispostos a subir a correnteza.

E, quando o impossível veste vermelho e branco, até o Brasil, que não costuma amar a Argentina, encontra no Paraguai uma seleção extra para torcer.

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Postado em 02/07/2026

Categorias: Copa do Mundo

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