A eliminação da Seleção Brasileira para a Noruega na Copa do Mundo não foi apenas um resultado esportivo adverso; foi um choque elétrico na nossa combalida estabilidade emocional coletiva. Quando o juiz apita o fim do jogo e decreta a queda de um time que, sejamos francos, não jogou bem, a engrenagem digital e social aciona imediatamente o seu dispositivo de defesa favorito: a caça às bruxas. Dedos são apontados, culpados são eleitos em praça pública e o tribunal do cancelamento dita o tom da conversa.
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Mas a verdade que evitamos encarar é que a nossa fúria não é com o erro do passe ou com a falha tática. É com o espelho.
O futebol é um dos raros espaços que restaram na modernidade onde nos é permitido experimentar a subjetividade em estado bruto. Em uma rotina mediada por planilhas, metas e performances cirúrgicas, o gramado é o palco onde depositamos nossa fome de absoluto.
A vitória representaria a validação temporária de que somos capazes de vencer o caos. O título da Copa do Mundo funciona, no imaginário social, como um analgésico existencialista: a promessa de que, pelo menos ali, fomos inteiros, fomos heróis, fomos invencíveis. Vencer significa anestesiar a falta. Significa acreditar que a vida pode ser uma linha reta de conquistas e redenções.
Quando a derrota vem — e vem da pior forma, sem a dignidade do brilho cênico —, o que experimentamos é o desamparo fundamental. A perda no futebol dói porque ela é a metáfora perfeita de todas as nossas perdas invisíveis: os projetos que falharam, os prazos que não cumprimos, os afetos que se esvasiaram e os ciclos que fomos obrigados a fechar sem qualquer aviso prévio. Ver o jogador desabar no gramado é, no fundo, ver a nossa própria vulnerabilidade exposta em alta definição.
A cultura de massa nos treinou para odiar o vazio. O mercado exige de nós uma resiliência imediata, quase desumana. Mas, psicanaliticamente, a queda é o momento exato em que o real se impõe. Ela nos força a lidar com a castração — com o fato incômodo de que nem tudo está sob o controle do nosso desejo ou do algoritmo que rege nossas vidas.
O torcedor comum não chora apenas a ausência de uma taça; ele chora porque, por algumas semanas, usou aquela camisa como um escudo para esconder as suas próprias angústias diárias. Diante da TV, nós nos enxergamos na nossa própria dor: a dor de tentar muito e, ainda assim, falhar diante do mundo.
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Todo fechamento de ciclo carrega em si a semente do próximo passo. No entanto, só habita o novo quem tem a coragem de suportar o fim do anterior. É no espaço vazio deixado pela eliminação, na fenda que a falta abre na nossa rotina, que a estrutura se reorganiza. É ali que o desejo renasce mais maduro, consciente e indomesticável.
Não se trata de buscar o otimismo barato da autoajuda corporativa que manda “aprender com os erros” para faturar mais amanhã. Trata-se de humanizar a nossa própria imperfeição. O futebol, em sua beleza trágica, é o espelho da nossa caminhada. Em vez de tentarmos anestesiar a frustração de hoje com o ódio coletivo, deveríamos usar esse luto para tensionar o mecanismo. Afinal, o recomeço não é um erro do sistema; é a sua condição fundamental.
Foto Reprodução / FIFA
Autora: Renata Nandes é jornalista, psicanalista e mestra em comunicação digital. Pesquisa futebol, mídia, gênero e imaginário social. Atua também na interface entre comunicação institucional, cultura digital e análise crítica do discurso.
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