O cheiro é o mesmo de Copas anteriores: papel autocolante novo e impressão fresca.
Quem abre hoje o primeiro pacotinho do álbum da Copa de 2026, praticamente, não está abrindo um pacotinho de 2026. Está abrindo um envelope que atravessa décadas, que cheira a banca de jornal de bairro, a recreio de escola.
O futebol ainda nem começou e a memória já está em campo.
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Esse é um truque da Panini. Meses antes do apito inicial, o álbum chega às bancas vendendo tradição. Tempo passado, costurado ao tempo presente e futuro.
O colecionador que cola as figurinhas na página da nova Seleção Brasileira está, ao mesmo gesto, recolando Taffarel, Romário, Bebeto, Ronaldo, Neymar, Cafu, Kaká, Denílson e outros.
Cada figurinha nova é um replay das outras antigas.
A indústria sabe disso e organiza tudo com planejamento. A diagramação, praticamente, repete há trinta anos a mesma gramática visual. Os jogadores posam quase do mesmo jeito, sob a mesma luz neutra de estúdio. Não é preguiça de design, é estratégia que vem dando certo.
A continuidade estética é o que permite que pai e filho folheiem álbuns de Copas diferentes com a sensação de estar lendo o mesmo livro.
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Há quem diga que isso é só comércio, e é. Mas é um comércio que se sustenta sobre algo que o capital costuma ter dificuldade de fabricar: afeto verdadeiro e pertencimento.
Ninguém compra ou troca figurinha por obrigação. Ninguém entra em grupo de WhatsApp de colecionador às onze da noite por dever profissional. A economia paralela do álbum, com suas legendárias custando o preço de um ingresso de estádio, funciona porque mobiliza uma moeda que não está no balanço da Panini: a vontade de não esquecer e de se satisfazer.
E é aqui que o álbum revela seu mecanismo mais ardiloso. Ele não espera a Copa acontecer para virar memória. Ele já chega como memória. Antes do primeiro gol, antes da primeira convocação definitiva, antes de sabermos quem vai chorar e quem vai erguer a taça, o álbum já decidiu o que deve ser lembrado e como. Programou o afeto. Prescreveu a saudade futura.
No mês que vem, alguma criança vai abrir um pacotinho e descobrir uma figurinha rara. Vai correr até o pai, ofegante, mostrando a figurinha de Lamine Yamal, o jovem astro da Espanha, que, por lesão, pode ficar fora da Copa. O pai vai sorrir e contar alguma lembrança de algo parecido.
A Copa de 2026 ainda não começou. Todas as outras, sim, estão acontecendo de novo, ali, naquela banca, naquele instante.
É esse o produto. Não o álbum. O instante.
Débora Vasconcelos, Edwaldo Costa, Raphaela Kubo e Renata Nandes.
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